Sintomas psicóticos, como delírios e alucinações, não são exclusivos da esquizofrenia. Outros distúrbios psiquiátricos, bem como doenças clínicas que acometem o cérebro, podem apresentar sintomas psicóticos semelhantes à esquizofrenia. Por isso a ênfase na necessidade de se buscar uma avaliação médica logo que os primeiros sintomas forem notados. Mostramos,a seguir, alguns exemplos:
·Transtorno Bipolar do Humor (TBH)
Antigamente conhecido pelo nome de Psicose Maníaco-depressiva, o TBH é caracterizado por um distúrbio primário do humor, com oscilações entre a depressão e a mania ou hipomania. A mania é caracterizada por um estado de euforia extrema, com diminuição da necessidade do sono, aumento da energia e da disposição, ansiedade, inquietação ou agitação, humor extremamente alegre ou eufórico, idéias e sentimentos de grandeza, fala acelerada e desorganização do pensamento, dificuldades de concentração e de memória, perda da autocrítica e, em alguns casos, delírios e alucinações. A hipomania é um estado maníaco mais leve e que raramente cursa com sintomas psicóticos.
Um paciente com mania pode ter uma crise psicótica muito semelhante a do esquizofrênico, sendo apenas possível diferenciá-los pela história passada ou durante a evolução da doença. O ponto crucial de diferenciação entre o TBH e a esquizofrenia, é que no TBH o paciente retorna ao seu nível anterior de funcionamentoapós a crise, não ocorrendo, como nos esquizofrênicos, sintomas negativos. Os delírios e alucinações também melhoram à medida que o humor se normaliza, não ocorrendo sintomas psicóticos nos períodos fora da crise. No TBH são mais frequentes episódios depressivos graves com risco de suicídio...Leia Mais.
·Transtorno Esquizoafetivo
O Transtorno Esquizoafetivo pode ser considerado um diagnóstico intermediário entre o TBH e a esquizofrenia, pois tem características comuns a ambos. Ocorrem alterações do humor semelhantes ao TBH (mania, hipomania e depressão) e sintomas psicóticos, inclusive sintomas negativos, semelhantes à esquizofrenia. Em geral, os pacientes esquizoafetivos são mais preservados em sua autonomia e vida social do que os esquizofrênicos, embora se perceba claramente dificuldades impostas por sintomas negativos ou positivos que não remitem completamente com a melhora do humor, como no TBH.
·Psicose Pós-parto
A psicose pós-parto ocorre até seis meses após o parto, sendo mais comum nos primeiros dias do puerpério. A mulher tem alterações do humor, principalmente depressão e ansiedade, embora mania também possa ocorrer, além de sintomas psicóticos, como delírios ou crenças direcionadas ao filho, alucinações e alterações do comportamento (p.ex. não consegue cuidar do filho, fica agitada e agressiva). O quadro pode ser muito semelhante ao episódio agudo da esquizofrenia e, apesar de possível um primeiro surto esquizofrênico no pós-parto, o mais comum é que esse episódio psicótico seja a expressão de um episódio do humor (maníaco ou depressivo), que mais tarde poderá ser diagnosticado como um TBH. A diferenciação da esquizofrenia se dá pela ausência dos sintomas negativos ou positivos depois de sanada a crise.
·Doenças Neurológicas
Diversas doenças que acometem o cérebro podem provocar sintomas psicóticos, particularmente quando afetam as regiões frontais ou temporais do cérebro ou quando exercem um efeito de massa sobre ele, como no caso dos tumores. Doenças infecciosas, como meningites e encefalites, isquemias ou hemorragias, como AVE (derrame) ou aneurismas, tumores do SNC, doenças desmielinizantes, como a Esclerose Múltipla, traumatismos cranianos graves e epilepsia, principalmente as do lobo temporal e frontal, podem cursar com episódios psicóticos com apresentações muito semelhantes à esquizofrenia. A diferenciação entre esses casos e a esquizofrenia é a partir do exame físico e neurológico, de exames de imagem, como tomografia computadorizada ou ressonância magnética e eletroencefalograma.
·Outras Doenças Físicas
A psicose também pode ocorrer em doenças endócrinas, como o hipertireoidismo, em doenças reumáticas, como o Lúpus Eritematoso Sistêmico, na AIDS, por uma encefalopatia causada pelo vírus HIV, e pode ser decorrente de medicações, como corticóides, anfetaminas, medicações para a Doença de Parkinson, entre outras.
·Álcool e outras drogas
O uso abusivo e crônico de bebidas alcoólicas predispõe o indivíduo ao desenvolvimento de psicoses mais tardias, na 4ª ou 5ª década de vida (dependendo da quantidade de consumo do álcool), caracterizadas por muitas alucinações e delírios persecutórios. A psicose associada ao álcool também pode ocorrer por lesões no cérebro provocadas pelo uso prolongado da substância, como no caso da Psicose de Korsakoff e da Demência Alcoólica. Drogas como cocaína, crack, LSD, ecstasy, chá de cogumelo, entre outras podem provocar paranóia e alucinações transitórias (durante o uso e até por algumas horas ou dias após) e predispõem ao desenvolvimento de outras doenças psiquiátricas.
·Retardo Mental
O retardo mental ou oligofrenia é causado por um atraso do desenvolvimento neurológico decorrente de síndromes genéticas (como na Síndrome de Down), defeitos congênitos, causados por infecções ou substâncias tóxicas durante a gravidez (como no caso da Sífilis congênita e da Síndrome Alcoólico Fetal, pelo abuso do álcool durante a gravidez), por problemas do parto (como a hipóxia neonatal) e por agressões ao cérebro nos primeiros anos de vida (como meningite, traumatismos cranianos e desnutrição). O retardo mental pode ser de leve a profundo, acometendo da inteligência ao desenvolvimento motor da criança. Sintomas psicóticos ocorrem com frequência nos casos leves e moderados, mas uma história de atraso do desenvolvimento, com retardo da fala e da capacidade de andar, dificuldades escolares e de aprendizado marcantes, permitem diferenciar esses pacientes daqueles com esquizofrenia.
·Autismo
O autismo é caracterizado por alterações da linguagem e da comunicação, da capacidade de interação pessoal e social e por comportamentos repetitivos (estereotipias). É considerado um transtorno invasivo do desenvolvimento que ocorre em crianças até o 3º ano de vida. Dificilmente é confundido com a esquizofrenia, pois o autismo surge na infância e crianças autistas geralmente não se comunicam, poucos falam, não interagem com as pessoas e apresentam comportamentos ou movimentos repetitivos, por vezes grosseiros e bizarros, que não ocorrem na esquizofrenia.
·Demências
A psicose com início após a 5ª década de vida deve ser bem investigada para descartar doenças degenerativas do cérebro, como as demências, a mais comum delas a Doença de Alzheimer. O paciente com demência pode apresentar sintomas psicóticos nas fases iniciais ou intermediárias da doença e que são secundários ao processo degenerativo. A demência é ainda caracterizada por perdas cognitivas, como a perda progressiva da memória, da capacidade de entendimento e comunicação, da capacidade de executar tarefas, com dependência progressiva para as atividades de vida diária, como tomar banho, vestir-se e alimentar-se.
·Delirium
Delirium é um quadro orgânico com manifestações psiquiátricas agudas e exuberantes que ocorrem como conseqüência de alguma doença física. Ele é caracterizado principalmente pela confusão mental, desorientação temporal e espacial, alterações do nível da consciência (geralmente com prostração ou sonolência), da atenção e da memória e que frequentemente vem acompanhado de delírios e alucinações. Alguns exemplos são o Delirium Tremens, que ocorre em alcoolistas durante uma abstinência alcoólica grave, delirium por hipoglicemia em pacientes diabéticos e que usam insulina, delirium no idoso por quadros infecciosos, anemia aguda, distúrbios metabólicos ou por internação hospitalar prolongada (síndrome de confinamento).